Antes de se consolidar como capital de um dos regimes ditatoriais mais fechados do mundo, Pyongyang, na Coreia do Norte, era reconhecida como a “Jerusalém do Oriente”. O fato histórico foi resgatado pela jornalista Adriana Bernardo em um artigo publicado recentemente.
No final do século XIX, a cidade de Pyongyang era um vibrante centro cristão, com missões protestantes estabelecidas por missionários presbiterianos e metodistas dos Estados Unidos, Canadá e Austrália, autorizados pela então dinastia Joseon.
Entre 1901 e 1907, Pyongyang viveu um período de intensa atividade religiosa. O missionário Samuel Moffett fundou o Seminário Teológico Presbiteriano da cidade, e o “Avivamento de Pyongyang” de 1907 reuniu centenas de fiéis em manifestações públicas de fé. Na época, dois terços dos cristãos coreanos residiam na região norte, e a cidade se distinguia pela concentração de igrejas, escolas e instituições missionárias.
Mudança
A ocupação japonesa (1910-1945) e a Guerra da Coreia (1950-1953) alteraram drasticamente o cenário anterior. Com a ascensão do regime comunista liderado por Kim Il-Sung, iniciou-se uma repressão sistemática às práticas religiosas.
Igrejas foram fechadas, missioniros expulsos e o cristianismo passou a ser considerado uma ameaça ao Estado. A narrativa oficial foi reescrita para elevar Kim Il-Sung a objeto de culto, apagando progressivamente a história cristã da região.
Em janeiro de 2024, Kim Jong-un anunciou o abandono oficial da política de reunificação com a Coreia do Sul. O Arco da Reunificação, construído em 2001, foi demolido, e referências ao termo “reunificação” foram removidas de materiais públicos e estações de metrô.
Especialistas e organizações internacionais classificam a Coreia do Norte como um regime totalitário, baseando-se em evidências como: o domínio exclusivo do Partido dos Trabalhadores; o culto à personalidade da dinastia Kim; o controle estatal da mídia; a existência documentada de campos de trabalho forçado e punições coletivas; e a supressão sistemática da liberdade religiosa.
Apesar do contexto repressivo, vestígios de prática religiosa permanecem. A Changchung Cathedral (católica) e a Igreja Ortodoxa da Trindade Vivificante operam sob rigoroso controle estatal, com presença limitada de clero estrangeiro. Em 1992, o evangelista Billy Graham visitou Pyongyang, em uma iniciativa que reacendeu temporariamente a memória histórica da cidade.
Organizações cristãs internacionais continuam a monitorar a situação religiosa no país, lembrando que a identidade espiritual que outrora caracterizou Pyongyang como a “Jerusalém do Oriente” permanece como parte de sua história não oficial.